E
com o vazio as coisas passam a se completar. Vão mudando e em um piscar de
olhos se tornam algo que você nunca imaginaria. É estranho como uma simples
célula que começou a se multiplicar dentro de um útero se torne uma criança. É
realmente emocionante saber que um dia essa criança vai trazer algo que talvez
possa fazer a diferença. Ou talvez não... Mas é bom pensar que todos já
passamos por esse estado elementar no qual somos frágeis, dependentes e
alienados. O legal é que não sabemos de nada, mas temos apenas um sentimento,
ou quase isso, é a saudade. Saudade de um lugar só nosso no qual estamos
confortavelmente vivendo sem saber que estamos lá. Um lugar onde você escuta
vozes estranhas e uma delas deixa de ser estranha e passa a ser rotineira, amável,
familiar, doce, bonita, segura, confortável e até musical. A mãe. Somente lá
dentro, dentro de outra criatura, que um dia passou por tudo que ela está
passando, ela entende que está tudo bem. Mas de repente tudo começa a ficar
apertado. Alguma coisa lá dentro começa a se mexer, primeiro uma batida
estranha forte, desorientada... Depois... De novo!... Ouviram? Não? Mas está lá
se mexendo... E depois segue um ritmo, padronizado onde continua esse movimento
perpétuo até o fim da vida. O coração começou sua longa jornada de trabalho. Nasceram
mãos e pés, ela agora se movimenta voluntariamente. As descobertas não param
por ai, agora sabe quando está com fome, entende o carinho da mãe e fica cada
dia mais divertido se espreguiçar e chutar. O único ruim é que cada vez o lugar
parece menor, ou será que? Será possível? Mas é! A criatura está crescendo.
Algo dentro do crânio começa a crescer, quando isso acontece às coisas parecem
ficar cada vez mais claras... Tudo faz sentido agora... Ela criou consciência.
Está cada vez mais esperta, está cansada daquele lugar, quer descobrir um mundo
novo. Não gosta mais de ficar em um lugar que não dá espaço para que ela possa
crescer em liberdade. Tudo começa a ficar insuportável, não consegue se mexer
para quase nada, isso é irritante. Então ela toma uma decisão: “Vou sair desse
lugar!”. É difícil fazer as coisas de uma vez, mas o medo é a cada dia maior. A
decisão de continuar é sempre mais que impossível de ser tomada e a outra
decisão, ela tinha acabado de tomar. E quando abandona o medo e decide que
chegou a hora, vem uma expectativa acompanhada de uma ansiedade compulsiva e a
faz finalmente querer descobrir o que a espera.
Então lá vamos nós, é um... Dois... Três... A
escuridão que era companheira de longa data a abandona, no lugar vem uma luz
quase insuportável, os sons ficam cada vez mais fortes e poderosos. Algo chamado “ar” entra em seus pulmões, é
seco, estranho e frio. O lugar confortável, quentinho e seguro não existe mais.
E a saudade toma conta da criatura que passa a ser chamada de bebê. E o bebê
está triste, pois imaginou que suas descobertas levariam a um lugar muito
melhor, tão perfeito quanto o lugar que estava antes de entrar nesse lugar
frio, claro e barulhento. Mas tem alguém
ao lado dele para protegê-lo e cuidar dele, a mãe está lá ao seu lado e agora
finalmente pode ver o rosto dela. Algo começa a ronronar na barriga, é o
estômago vazio, a fome agora é diferente, parece mais física do que mental. E o
único alimento para essa nova fome é o leite, provindo da própria mãe. Essa por
enquanto é a única ciosa que o ajudará a sobreviver em um lugar desconhecido e
potencialmente arriscado.
Na vida passamos por fases assim também. Tem
uma fase onde estamos frágeis e preferimos o conforto de um lugar protegido,
depois algo te faz querer descobrir o mundo, temos decepções, mas no fim sempre
tem alguém ao nosso lado para nos dar apoio nessa longa jornada.
Tudo se transforma, isso é o que
torna o mundo tão encantador. E tantas outras fases bonitas como o primeiro dia
de aula, a professora do jardim de infância, os amigos que poderão acompanha-lo
por toda a vida, a primeira namorada, as lembranças felizes e uma bela música.
Tudo depende da forma como você encara sua realidade e aplica suas descobertas pessoais.
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